Vivências com relação à raça e ao racismo entre psicoterapeutas da Abordagem Centrada na Pessoa

Autores

DOI:

https://doi.org/10.64827/riec.v8i1.493

Palavras-chave:

Abordagem centrada na pessoa; Psicoterapia; Racismo. Raça.

Resumo

O objetivo da pesquisa foi compreender as vivências de psicoterapeutas que adotam a Abordagem Centrada na Pessoa em relação à raça e ao racismo em seus atendimentos clínicos. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas online com 12 psicoterapeutas, e a Análise Temática foi utilizada para interpretar os dados. Definiram-se três categorias: conhecimento sobre raça e racismo, impactos da vivência com a racialidade na relação com a ACP, e impactos da vivência com a racialidade na relação com os clientes. Verificaram-se diferenças nas experiências de psicoterapeutas brancos e negros. Constatou-se que a formação em psicologia aborda superficialmente esses temas, com profissionais negros buscando estudos de forma autônoma, refletindo maior consciência racial. Psicoterapeutas brancos sentem-se inseguros para discutir racismo nos atendimentos. Psicoterapeutas negros têm maior nitidez sobre mudanças necessárias na ACP, enquanto os brancos não reconhecem as implicações de sua racialidade. Psicoterapeutas negros relataram ser procurados por clientes que buscam identificação racial, fator significativo para a construção da identidade racial de ambos. Psicoterapeutas brancos tendem a considerar a raça relevante apenas para os clientes, sem reconhecer as implicações da própria racialidade na relação terapêutica. Conclui-se que a ACP deve ser criticamente transformada para incorporar dimensões raciais e culturais, promovendo uma prática clínica mais inclusiva.

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Publicado

2026-03-20

Edição

Secção

Dossiês